Autor: Pedro Brasil

  • Afonso Henriques – Entre a Espada e a Parede

    Depois da direção de MPL pensei que a espiral de mais dívida e tomada de mais risco ficaria estancada. Enganei-me. Os últimos 4 anos, e por isso esta direção, foram a pior coisa que aconteceu a este clube. A 30/6/2025, e face ao exercício de 2022 quando AMC toma posse, o passivo aumentou de €52,1M para €69.4M, sendo que a maioria deste é exigível no curto prazo. Tais valores não ficarão por aqui, como parece confirmar o comunicado de hoje do Conselho Fiscal.

    A direção de MPL foi julgada em eleições em 2022 e, portanto, pouco quero acrescentar, mas existia uma visão relativamente generalizada que a situação piorou face à tomada de posse de 2019, e que o Vitória corria sérios riscos de ver a sua situação financeira (e inerentemente a sua situação desportiva) comprometida para o futuro próximo.

    O início do mandato de AMC parecia de efetiva mudança. Muito se falava no “caminho das pedras”, na “aposta na formação”, tudo isso salvaguardado por uma “almofada financeira”.

    Mas os argumentos que serviram para dar espaço e deixar a direção “respirar”, como o próprio presidente pedia para a equipa noutra ocasião, foram nada mais nada menos do que pedir um cheque em branco de espaço de manobra que culmina na situação atual.

    Da direção de MPL tivemos uma coisa: um conjunto de ativos que renderam elevados valores de venda à direção de AMC. Os valores líquidos, esses, foram desapontantes e revelaram a dificuldade que AMC teve para impor força negocial nos processos de venda de jogadores.

    Independentemente disso, seria lógico do ponto de vista financeiro que o produto das vendas de jogadores fosse usado para amortizar dívida e renegociar a sua maturidade. Ao mesmo tempo, esperaria ter visto diminuições consistentes ao nível de “Gastos com Pessoal” e “Fornecimentos e Serviços Externos” de forma a criar novos excedentes.

    Esse foi o caminho que todos entenderam que ia acontecer (e cuja maioria concordou) e totalmente o inverso do que aconteceu:

    1)       contratação de vários treinadores e pagamento das suas indemnizações aquando das rescisões

    2)       gastos elevados e crescentes em FSEs ao invés de uma otimização e redução gradual;

    3)       gastos elevados e crescentes em pessoal ao invés de uma otimização e redução gradual;

    Cortes são medidas impopulares e talvez por isso a direção demissionária se tenha afastado de tal solução. No entanto, eram imprescindíveis para o caminho que os próprios se propunham trilhar.

    Face às receitas obtidas, o que esperaria ver neste momento é bem diferente daquilo que encontramos nestes 4 anos de mandato.

    Se o caminho de formação e redução de custos tivesse sido sério e contínuo, esperaria ver um passivo bastante inferior.

    Apesar de considerar €40M ainda bastante expressivo para a realidade do Vitória, e um autêntico teto a aspirações maiores, seria um caminho de descida que tenderia a acelerar nos próximos anos. Para isso contribuiriam poupanças anuais ao nível de juros, gastos com pessoal, rescisões de treinadores (deveríamos ter tido 1 treinador de mandato para este projeto e pouco mais).

    Muitos sócios podem considerar tal descida do passivo irrealista. Se não existissem vendas poderia ser, mas o que a torna realista é que existiu produto de venda de jogadores expressivo. Ou seja, as receitas existiram, elas simplesmente foram gastas em despesa corrente em vez de em reestruturação.

    Esta redução da dívida não foi possível porque os gastos continuaram a aumentar depois de uma – breve – quebra. Não há qualquer racional para isso na situação em que o Vitória se encontrava e que o Presidente fazia questão de relembrar constantemente. 

    Numa gestão mais rigorosa, diria que a evolução teria sido algo como no gráfico abaixo.

    Uma gradual redução no ano de 2023/24 e 2024/25 ao invés do aumento. Mesmo com o argumento de competições europeias e o inerente aumento de gastos, o Vitória deveria ter sido mais contido e ter até intensificado outros cortes de forma às receitas europeias serem excedentes para abater a dívida.

    Num cenário alternativo de gestão disciplinada, o défice estrutural seria de cerca de -€5M. A venda de “um jogador” por época seria suficiente para equilibrar as contas, sem a constante necessidade de destruição de planteis e “anos zeros”.

    Se todos os anos zero são apenas para pagar contas, o Vitória está numa espiral negativa da qual já não sairá de forma orgânica sem um real caminho das pedras.

    Se o caminho inicial fosse mantido, os défices reduzidos e o clube realmente reestruturado, penso que hoje estaríamos num cenário bem diferente. Capitais próprios continuariam negativos, mas a caminho da recuperação efetiva, passivo num valor que calculo entre os €37M e os €43M, com óbvia poupança nos juros suportados.

    Uma massa salarial muito mais “gerível” e “terra à vista” no sentido de sabermos que, continuando este projeto desta forma, teríamos capacidade de voltar a investir a prazo com muita segurança da independência do Vitória.

    Perante a situação atual, a independência é precisamente o elefante na sala.

    A Vsports tem todo o interesse em continuar a injetar dinheiro classificado como curto prazo, como é atualmente a dívida da Vitória SAD.

    Resta saber como conseguirá o Vitória manter a independência, ou seja, a maioria na SAD, quando o acionista e outros credores exigirem os valores em dívida.

    A resposta é que provavelmente não conseguirá. E acho que será daqui que parte a maior razão pela qual a atual direção se demite. AMC sempre “defendeu” a maioria da SAD ser detida pelo clube e agora vê-se numa situação em que, na falta de soluções, teria de forçosamente fazer algo que nunca defendeu.

    Este presidente e esta direção tiveram algo que por força das circunstâncias não existia no Vitória há muitos anos. Tranquilidade, compreensão e espaço para trabalhar. Os últimos presidentes do Vitória enfrentaram momentos difíceis. Covid-19, Crise de 2008, Crise da dívida de 2011, entre muitas contestações, contratempos desportivos e expectativas dos associados. AMC beneficiou de uma economia a crescer depois da pandemia, um crescimento muito relevante do mercado do Médio Oriente e de um espaço, tranquilidade e compreensão da parte da massa associativa que nunca tinha visto em 20 anos de sócio.

    Isso não chegou. Não existiu coragem para tomar as medidas que eram efetivamente necessárias e agora o Vitória fica entre a espada e a parede com os credores.

    Para os próprios candidatos será uma tarefa difícil porque não sabem a situação atual das contas e podem deparar-se com um cenário mais complicado do que aquele que possam antever, o que dificulta o trabalho corrente de preparação da época já ela em contrarrelógio.

    Urge uma divulgação detalhada da situação do clube para que os candidatos possam apresentar um plano sintonizado com a realidade atual.

    É para isso necessário que seja divulgado aos candidatos que se proponham ao ato eleitoral, no mínimo:

    1)       Um balancete analítico de março;

    2)       O mapa de dívida detalhado com as garantias e condições de financiamento contratualizadas;

    3)       O mapa de factoring atual, ou seja, que receitas foram adiantadas, a custo financeiro para o Vitória, e com as quais a próxima direção pode não contar.

    Sem estes e outros pontos dificilmente será possível fazer um plano realista e que possa enfrentar os primeiros meses com a confiança de gestão necessária. Não é tempo de confidencialidade, mas de transparência absoluta com os associados, principalmente aqueles que tiverem a coragem para o ato eleitoral que aí vem.

    Pedro P Brasil

    Sócio 7142