Autor: Pedro Brasil

  • Não há atalhos: investidor ou reestruturação?

    Duas correntes de pensamento vão debater no curto prazo o futuro do Vitória. Uma defende que é preciso encontrar um investidor – alguém que traga dinheiro e resolva o problema de qualquer maneira. Outra defende que é preciso primeiro arrumar a casa – cortar custos, reduzir a dívida e tornar o clube financeiramente viável e atrativo.

    Não são posições necessariamente inconciliáveis no tempo, mas são-no de momento e na ordem que são executadas.

    O estado da casa

    Convém recordar e ter presente os factos essenciais a 30/6/2025: passivo de €69,4 milhões e custos operacionais anuais de €30,5 milhões. A somar a isso, um défice estrutural de 9 milhões. Seria o mesmo que qualquer um de nós ganhar 1000, gastar 1200, e depender dos prémios que podemos ou não receber para pagarmos as nossas contas. Inviável e demasiado arriscado.

    O “Investidor” (Que muitos esperam como um D. Sebastião):

     Um investidor neste momento olha para a nossa SAD e vê:

    1. Capitais próprios negativos – O mesmo que o leitor dever 200 mil ao banco no seu apartamento, e o apartamento só valer 150 mil.
    2. 13 a 15 milhões de receitas recorrentes, mas 30 milhões de despesas – O mesmo que o leitor ganhar 1000 e gastar 2000.
    3. Dívida a credores internacionais com juros que chegam a 10%.
    4. Direitos televisivos que podem já estar adiantados.

    Com esta imagem, e como vemos em casos de dificuldades financeiras de empresas por essa economia fora, a compra é feita a um preço extremamente baixo, muitas vezes simbólico, assumindo em troca o passivo.

    O que faria o Investidor que comprasse nestes termos

    Há quem acredite, imagine ou tenha esperança de que o investidor traria dinheiro que atirava para cima do problema e esse problema magicamente se resolvia. A probabilidade de isso acontecer, principalmente num Campeonato como o português onde o potencial é muito limitado para dívidas desta dimensão, é muito baixo.

    O mais provável seria um investidor fazer exatamente aquilo que alguns sócios consideram doloroso e que querem evitar: cortar custos. Criar sinergias com outras empresas ou clubes que já tenha. Nenhum investidor iria manter um possível défice e prejuízo estrutural de 9 milhões. O investidor pretende obter lucro, não perdas para alimentar o sonho de sócios. Essa é a dura realidade.

    A diferença entre ser o clube a fazer esta reestruturação e ser o investidor é que se for o clube a fazê-la, será o clube a ficar com o benefício da mesma. Se for o investidor, ele comprará barato e depois fazendo-a terá ele um ativo que pode revender, ganhar imenso dinheiro, numa transação que já não traz nenhum benefício ao clube.

    O caminho das pedras (Mas a sério)

    O caminho das pedras que muitos falam e receiam nunca foi realmente feito no Vitória. Inclusive o presidente demissionário falou dele, no primeiro ano parecia que ia nesse sentido, e rapidamente abandonou a ideia. Isso não é sério nem é profissional.

    Esse caminho precisa de contenção durante 2 mandatos – 3 a 6 anos com crescimento real no terceiro mandato. Era o que devia agora estar a ter frutos se não fosse a viragem de 180 graus.

    Essa contenção permite libertar a SAD dos milhões de euros que estão a ser gastos todos os anos em juros, que na minha opinião seriam mais bem aplicados nas infraestruturas de uma academia que se fala há 15 anos, mas tiveram ZERO progresso.

    Se fizermos este caminho agora temos a possibilidade de em 3 anos recuperar, em 6 anos estabilizar e em 9 anos crescer em relação aquilo que temos hoje. Muitos dirão que não querem esperar, mas não tenho dúvidas que é a melhor hipótese de sucesso. Afinal, que sucesso tivemos nos últimos 9 que não mereça tentar?

    Se não quisermos, temos de pelo menos ter muito presente do risco que daí pode advir. Deixaremos de ter qualquer influência na tomada de decisão (esqueçam direitos de veto que existiam com Mário Ferreira, a situação agora é outra). O investidor quererá controlo mais vasto.

    Com o atual passivo, ativos e défices recorrentes o atual valor da SAD é negativo. Significa que alguém ficaria com ela por um valor insignificante para as aspirações do Vitória e dos sócios. Mas o cenário pode em muito alterar com redução de dívida, redução de custos e manutenção de receitas.

    Nada disto significa que o Vitória deva fechar a porta a investidores se essa for a vontade dos sócios. Significa que deve abri-la no momento certo – e esse momento, não tenho dúvidas, é depois de arrumar a casa.

    Uma SAD reestruturada, com custos controlados e resultados operacionais positivos vai atrair certamente investimento em condições que para além de serem melhores serão motivo de agrado e de orgulho dos sócios.

    Pedro Brasil

    Socio 7142

  • Afonso Henriques – Entre a Espada e a Parede

    Depois da direção de MPL pensei que a espiral de mais dívida e tomada de mais risco ficaria estancada. Enganei-me. Os últimos 4 anos, e por isso esta direção, foram a pior coisa que aconteceu a este clube. A 30/6/2025, e face ao exercício de 2022 quando AMC toma posse, o passivo aumentou de €52,1M para €69.4M, sendo que a maioria deste é exigível no curto prazo. Tais valores não ficarão por aqui, como parece confirmar o comunicado de hoje do Conselho Fiscal.

    A direção de MPL foi julgada em eleições em 2022 e, portanto, pouco quero acrescentar, mas existia uma visão relativamente generalizada que a situação piorou face à tomada de posse de 2019, e que o Vitória corria sérios riscos de ver a sua situação financeira (e inerentemente a sua situação desportiva) comprometida para o futuro próximo.

    O início do mandato de AMC parecia de efetiva mudança. Muito se falava no “caminho das pedras”, na “aposta na formação”, tudo isso salvaguardado por uma “almofada financeira”.

    Mas os argumentos que serviram para dar espaço e deixar a direção “respirar”, como o próprio presidente pedia para a equipa noutra ocasião, foram nada mais nada menos do que pedir um cheque em branco de espaço de manobra que culmina na situação atual.

    Da direção de MPL tivemos uma coisa: um conjunto de ativos que renderam elevados valores de venda à direção de AMC. Os valores líquidos, esses, foram desapontantes e revelaram a dificuldade que AMC teve para impor força negocial nos processos de venda de jogadores.

    Independentemente disso, seria lógico do ponto de vista financeiro que o produto das vendas de jogadores fosse usado para amortizar dívida e renegociar a sua maturidade. Ao mesmo tempo, esperaria ter visto diminuições consistentes ao nível de “Gastos com Pessoal” e “Fornecimentos e Serviços Externos” de forma a criar novos excedentes.

    Esse foi o caminho que todos entenderam que ia acontecer (e cuja maioria concordou) e totalmente o inverso do que aconteceu:

    1)       contratação de vários treinadores e pagamento das suas indemnizações aquando das rescisões

    2)       gastos elevados e crescentes em FSEs ao invés de uma otimização e redução gradual;

    3)       gastos elevados e crescentes em pessoal ao invés de uma otimização e redução gradual;

    Cortes são medidas impopulares e talvez por isso a direção demissionária se tenha afastado de tal solução. No entanto, eram imprescindíveis para o caminho que os próprios se propunham trilhar.

    Face às receitas obtidas, o que esperaria ver neste momento é bem diferente daquilo que encontramos nestes 4 anos de mandato.

    Se o caminho de formação e redução de custos tivesse sido sério e contínuo, esperaria ver um passivo bastante inferior.

    Apesar de considerar €40M ainda bastante expressivo para a realidade do Vitória, e um autêntico teto a aspirações maiores, seria um caminho de descida que tenderia a acelerar nos próximos anos. Para isso contribuiriam poupanças anuais ao nível de juros, gastos com pessoal, rescisões de treinadores (deveríamos ter tido 1 treinador de mandato para este projeto e pouco mais).

    Muitos sócios podem considerar tal descida do passivo irrealista. Se não existissem vendas poderia ser, mas o que a torna realista é que existiu produto de venda de jogadores expressivo. Ou seja, as receitas existiram, elas simplesmente foram gastas em despesa corrente em vez de em reestruturação.

    Esta redução da dívida não foi possível porque os gastos continuaram a aumentar depois de uma – breve – quebra. Não há qualquer racional para isso na situação em que o Vitória se encontrava e que o Presidente fazia questão de relembrar constantemente. 

    Numa gestão mais rigorosa, diria que a evolução teria sido algo como no gráfico abaixo.

    Uma gradual redução no ano de 2023/24 e 2024/25 ao invés do aumento. Mesmo com o argumento de competições europeias e o inerente aumento de gastos, o Vitória deveria ter sido mais contido e ter até intensificado outros cortes de forma às receitas europeias serem excedentes para abater a dívida.

    Num cenário alternativo de gestão disciplinada, o défice estrutural seria de cerca de -€5M. A venda de “um jogador” por época seria suficiente para equilibrar as contas, sem a constante necessidade de destruição de planteis e “anos zeros”.

    Se todos os anos zero são apenas para pagar contas, o Vitória está numa espiral negativa da qual já não sairá de forma orgânica sem um real caminho das pedras.

    Se o caminho inicial fosse mantido, os défices reduzidos e o clube realmente reestruturado, penso que hoje estaríamos num cenário bem diferente. Capitais próprios continuariam negativos, mas a caminho da recuperação efetiva, passivo num valor que calculo entre os €37M e os €43M, com óbvia poupança nos juros suportados.

    Uma massa salarial muito mais “gerível” e “terra à vista” no sentido de sabermos que, continuando este projeto desta forma, teríamos capacidade de voltar a investir a prazo com muita segurança da independência do Vitória.

    Perante a situação atual, a independência é precisamente o elefante na sala.

    A Vsports tem todo o interesse em continuar a injetar dinheiro classificado como curto prazo, como é atualmente a dívida da Vitória SAD.

    Resta saber como conseguirá o Vitória manter a independência, ou seja, a maioria na SAD, quando o acionista e outros credores exigirem os valores em dívida.

    A resposta é que provavelmente não conseguirá. E acho que será daqui que parte a maior razão pela qual a atual direção se demite. AMC sempre “defendeu” a maioria da SAD ser detida pelo clube e agora vê-se numa situação em que, na falta de soluções, teria de forçosamente fazer algo que nunca defendeu.

    Este presidente e esta direção tiveram algo que por força das circunstâncias não existia no Vitória há muitos anos. Tranquilidade, compreensão e espaço para trabalhar. Os últimos presidentes do Vitória enfrentaram momentos difíceis. Covid-19, Crise de 2008, Crise da dívida de 2011, entre muitas contestações, contratempos desportivos e expectativas dos associados. AMC beneficiou de uma economia a crescer depois da pandemia, um crescimento muito relevante do mercado do Médio Oriente e de um espaço, tranquilidade e compreensão da parte da massa associativa que nunca tinha visto em 20 anos de sócio.

    Isso não chegou. Não existiu coragem para tomar as medidas que eram efetivamente necessárias e agora o Vitória fica entre a espada e a parede com os credores.

    Para os próprios candidatos será uma tarefa difícil porque não sabem a situação atual das contas e podem deparar-se com um cenário mais complicado do que aquele que possam antever, o que dificulta o trabalho corrente de preparação da época já ela em contrarrelógio.

    Urge uma divulgação detalhada da situação do clube para que os candidatos possam apresentar um plano sintonizado com a realidade atual.

    É para isso necessário que seja divulgado aos candidatos que se proponham ao ato eleitoral, no mínimo:

    1)       Um balancete analítico de março;

    2)       O mapa de dívida detalhado com as garantias e condições de financiamento contratualizadas;

    3)       O mapa de factoring atual, ou seja, que receitas foram adiantadas, a custo financeiro para o Vitória, e com as quais a próxima direção pode não contar.

    Sem estes e outros pontos dificilmente será possível fazer um plano realista e que possa enfrentar os primeiros meses com a confiança de gestão necessária. Não é tempo de confidencialidade, mas de transparência absoluta com os associados, principalmente aqueles que tiverem a coragem para o ato eleitoral que aí vem.

    Pedro P Brasil

    Sócio 7142